A resposta curta
O etanol compensa quando a relação entre o preço do litro do etanol e o da gasolina fica abaixo da relação entre o rendimento dos dois combustíveis no seu carro (km/l do etanol dividido pelo km/l da gasolina). Os “70%” são uma média, não uma lei. Na Tabela do PBE Veicular 2026 do Inmetro (arquivo “Tabela PBEV 2026_25_AGO”, atualização de 14/ago/26, consultada em 29/09/2026), as 271 versões flex a combustão com consumo publicado têm razão entre 64% e 74% na cidade (mediana de 69,8%) e entre 67% e 75% na estrada (mediana de 70,1%). A regra descreve bem o carro “médio”, mas erra para mais ou para menos em vários modelos.
De onde vem a regra dos 70%
Os dois combustíveis não rendem igual: um litro de etanol faz menos quilômetros que um litro de gasolina. A regra parte da ideia de que, num carro flex típico, o etanol rende perto de 70% do que a gasolina rende (a coluna de Boris Feldman citada abaixo descreve a regra como baseada em um consumo de etanol cerca de 30% maior). Se o carro faz 10 km/l com gasolina e 7 km/l com etanol, o etanol só empata no custo por quilômetro se o litro custar 70% do litro da gasolina.
Ou seja, o 70% não é um número mágico: é a razão de consumo de um carro típico. Colunistas do setor apontam há anos que essa razão mudou com a evolução dos motores e que o ideal é medir o próprio carro (por exemplo, Boris Feldman, CNN Brasil, 23/09/2024, e Vrum, 23/07/2026). A tabela do Inmetro permite conferir isso com números.
A fórmula do ponto de equilíbrio
- Razão do carro (R) = km/l com etanol ÷ km/l com gasolina.
- Preço de equilíbrio do etanol = R × preço da gasolina.
- Se o etanol custa menos que o preço de equilíbrio, abasteça com etanol. Se custa mais, com gasolina.
A conta equivalente é comparar o custo por quilômetro: preço do litro ÷ km/l de cada combustível. O resultado é o mesmo; a versão em razão só é mais rápida de fazer na bomba.
Teste com dados reais do PBE
A tabela abaixo usa dez versões flex de motores e categorias diferentes. Todos os valores de km/l são os da Tabela PBE Veicular 2026 (ensaio de laboratório); a razão é cálculo nosso (etanol ÷ gasolina).
| Modelo e versão (como na tabela) | Motor e câmbio | Cidade: etanol / gasolina (km/l) | Razão cidade | Estrada: etanol / gasolina (km/l) | Razão estrada |
|---|---|---|---|---|---|
| Hyundai HB20 Sense | 1.0-12V, manual 5 marchas | 9,9 / 13,3 | 74,4% | 10,7 / 15,4 | 69,5% |
| Renault Kwid Zen 2 | 1.0-12V, manual 5 | 10,4 / 14,4 | 72,2% | 10,7 / 15,4 | 69,5% |
| Honda City LX | 1.5-16V, CVT | 9,3 / 12,8 | 72,7% | 10,4 / 15,5 | 67,1% |
| Jeep Compass Longitude T | 1.3T-16V, automático 6 | 7,3 / 10,1 | 72,3% | 8,6 / 12,1 | 71,1% |
| Fiat Argo 1.0 | 1.0-6V, manual 5 | 9,4 / 13,6 | 69,1% | 10,4 / 14,5 | 71,7% |
| VW Polo MPI | 1.0-12V, manual 5 | 9,3 / 13,5 | 68,9% | 10,9 / 15,7 | 69,4% |
| Toyota Corolla Cross XR | 2.0-16V, CVT | 7,9 / 11,5 | 68,7% | 9,2 / 13,1 | 70,2% |
| Fiat Toro Volcano T270 AT | 1.3T-16V, automático 6 | 6,5 / 9,4 | 69,1% | 7,8 / 10,8 | 72,2% |
| Renault Oroch Intense 16M | 1.6-16V, manual 6 | 7,6 / 11,3 | 67,3% | 8,1 / 11,7 | 69,2% |
| Caoa Chery Tiggo 5X Pro | 1.5T-16V, CVT | 6,6 / 10,0 | 66,0% | 8,0 / 11,7 | 68,4% |
O que os números mostram
- O ponto de equilíbrio muda de carro para carro. Na cidade, o HB20 Sense chega a 74,4% e o Tiggo 5X Pro fica em 66,0%. Entre as 271 versões lidas, o menor valor na cidade foi 64,1% (Caoa Chery Tiggo 7 Sport 1.5T) e o maior, 74,4% (HB20 nas versões Sense, Comfort e Limited).
- O mesmo carro tem duas razões. O Honda City LX vai de 72,7% na cidade para 67,1% na estrada. Quem roda mais na estrada, com esse carro, precisa de um etanol mais barato do que quem roda na cidade.
- 70% é uma boa média, mas não é o corte certo para metade dos carros. Na cidade, 109 das 271 versões (40%) têm razão acima de 70%; na estrada, 139 (51%). Por outro lado, 162 (60%) e 132 (49%) ficam em 70% ou abaixo.
- Arredondamento conta. A tabela publica km/l com uma casa decimal, então diferenças de cerca de 1 ponto percentual entre dois carros estão dentro da margem de arredondamento.
- Não há relação simples com o tamanho do motor. Motores 1.0 aspirados aparecem tanto no alto (HB20) quanto no meio (Polo, Argo) da lista.
Exemplo com preços hipotéticos (exemplo)
Preços de exemplo, só para mostrar a conta: gasolina a R$ 6,00 e etanol a R$ 4,30 o litro (relação de 71,7%). Não são preços de mercado.
- HB20 Sense, cidade (R = 74,4%): equilíbrio = 0,744 × R$ 6,00 = R$ 4,46. Como R$ 4,30 é menor, o etanol compensa. Custo por km: etanol R$ 4,30 ÷ 9,9 = R$ 0,434; gasolina R$ 6,00 ÷ 13,3 = R$ 0,451.
- Fiat Toro Volcano T270 AT, cidade (R = 69,1%): equilíbrio = 0,691 × R$ 6,00 = R$ 4,15. Como R$ 4,30 é maior, a gasolina sai mais barata. Custo por km: etanol R$ 4,30 ÷ 6,5 = R$ 0,662; gasolina R$ 6,00 ÷ 9,4 = R$ 0,638.
- Honda City LX, estrada (R = 67,1%): equilíbrio = 0,671 × R$ 6,00 = R$ 4,03. Com etanol a R$ 4,30, a gasolina compensa na estrada.
Com os mesmos preços, três carros dão três respostas. Para calcular com os preços do seu posto e o consumo do seu carro, use a calculadora de combustível. Se quiser preços de referência, veja a nossa análise de preços de combustível por região. Preços de combustível mudam toda semana; o levantamento semanal da ANP é a fonte oficial.
Por que a conta de laboratório não fecha com a do seu carro
- O ensaio usa combustíveis de referência. A própria tabela informa que os combustíveis de referência seguem a Resolução ANP nº 864/2021 e que a gasolina de ensaio tem 22% de etanol anidro (E22), teor que difere do vendido nos postos.
- É consumo de laboratório. O Inmetro explica, no documento de metodologia, que os valores vêm de medições padronizadas (NBR 7024) e que, no uso real, o consumo varia com estilo de condução, trânsito, ar-condicionado, carga, pneus e manutenção. O documento diz que os fatores de ajuste, desenvolvidos pela agência ambiental dos EUA (EPA) a partir de dados reais, indicam que 90% dos usuários ficam dentro de mais ou menos 20% dos consumos declarados.
- A tabela não tem o ano-modelo de cada linha. Versões parecidas podem ter valores diferentes; confira a versão exata do seu carro.
Como achar a razão do seu carro
- Encha o tanque com etanol, zere o hodômetro parcial e rode normalmente até precisar abastecer de novo.
- Ao abastecer, anote os litros: km rodados ÷ litros = km/l do etanol.
- Repita com gasolina, em condições parecidas (mesmo tipo de trajeto).
- Divida o km/l do etanol pelo da gasolina. Esse é o seu R.
O computador de bordo ajuda, mas costuma ser uma estimativa. O método “tanque a tanque” é mais confiável.
Erros comuns
- Usar 70% para qualquer carro e qualquer trajeto.
- Comparar o preço do etanol com o da gasolina sem olhar o consumo do próprio carro.
- Usar o km/l de um dia só, ou de um trajeto muito diferente do seu uso.
- Esquecer que o resultado muda quando o preço muda: refaça a conta quando a relação de preços mudar.
Perguntas frequentes
Se o meu carro deu 74%, posso abastecer com etanol até 74% do preço da gasolina? Sim, é exatamente o que a fórmula diz: o etanol compensa no custo por quilômetro até esse ponto. Outros fatores, como potência e autonomia por tanque, não entram na conta.
A regra vale para carro flex híbrido? A tabela publica os híbridos separadamente e não os usamos aqui. Refaça a conta com o consumo do seu carro.
Preciso abastecer só com um combustível? Não. Carros flex aceitam os dois em qualquer proporção. O que muda é o custo por quilômetro em cada abastecimento.
Veja também
- Como calcular o consumo real do carro (km/l) e comparar com o Inmetro
- Rodar na reserva faz mal? Riscos, bomba e quanto dá para andar
- Como ler a etiqueta do PBE Veicular: consumo, classe e CO2



