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Terça-feira, 29 de setembro de 2026
Combustíveis

Como ler a etiqueta do PBE Veicular: consumo, classe e CO2

A letra A a E compara carros da mesma categoria em MJ/km, não em km/l. E CO2 abaixo de 100 g/km depende de olhar se o número é total ou fóssil.

Redação Notícias Automóveis Publicado em
Ilustração de uma escala de eficiência do verde ao vermelho no vidro de um carro
Ilustração conceitual gerada por inteligência artificial (não é fotografia). Não reproduz a etiqueta oficial.

A resposta curta

A etiqueta do PBE Veicular (ENCE) serve para comparar carros da mesma categoria, não para dizer se um carro é “bom” ou “ruim” no absoluto. A letra vai de A (menor consumo de energia) a E (maior), e é calculada com base no consumo energético em megajoules por quilômetro (MJ/km), não em km/l. O km/l da cidade e da estrada e o CO2 em g/km vêm de ensaios de laboratório. E “menos de 100 g/km” precisa de cuidado: na Tabela PBE Veicular 2026 do Inmetro, só 16 versões a combustão ou híbridas comuns com CO2 publicado têm menos de 100 g/km de CO2 total com gasolina (todas híbridas), mas mais de 120 versões têm menos de 100 g/km de CO2 fóssil.

Dados desta análise: Tabela PBE Veicular 2026, arquivo “Tabela PBEV 2026_25_AGO” (cabeçalho: “Atualização 14/ago/26”; 43 marcas e 976 modelos/versões), publicada pelo Inmetro no gov.br e consultada em 29/09/2026.

O que é o PBE Veicular e a ENCE

O Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV) é coordenado pelo Inmetro. Segundo o documento de metodologia do próprio Inmetro, o propósito é permitir que o consumidor compare a eficiência energética de veículos de uma mesma categoria e informar o consumo de combustível dos veículos leves vendidos no Brasil. A Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) foi criada em 2009, e o documento a descreve como afixada de forma voluntária nos modelos participantes; ela informa a classificação do veículo em sua categoria e os valores de quilômetros por litro na cidade e na estrada, com diferentes combustíveis. Esse documento é de 2009; a norma mais recente que encontramos é a Portaria Inmetro nº 169/2023, que, segundo o Inmetro, incorporou métodos de ensaio para híbridos e elétricos e novos cálculos de emissões.

As colunas da tabela, uma a uma

A tabela publicada pelo Inmetro segue a mesma lógica da etiqueta. Lendo o cabeçalho do arquivo:

  • Categoria: o grupo de comparação definido pelo Inmetro. Na tabela aparecem, entre outras, Sub Compacto, Compacto, Médio, Grande, Extra Grande, Utilitário Esportivo (Compacto e Grande), Picape Compacta e Picape. Repare que a categoria é do Inmetro: o Renault Kwid, por exemplo, está em “Utilitário Esportivo Compacto”.
  • Quilometragem por litro: cidade, estrada e combinado, em km/l, separados por combustível (etanol e gasolina, para os flex). A tabela informa que os combustíveis de referência seguem a Resolução ANP nº 864/2021, com gasolina de 22% de etanol anidro (E22) e diesel com 7% de biodiesel (B7), teores que diferem dos vendidos nos postos.
  • Consumo energético (MJ/km): a base da classificação. Quanto menor, melhor. Como é energia, e não litros, permite comparar carros a combustão, híbridos e elétricos.
  • Classificação PBE: duas letras. A relativa na categoria compara com os outros carros da mesma categoria; a absoluta geral compara com todos os veículos da tabela. A legenda do arquivo indica “A” para menor consumo energético e “E” para maior.
  • Selo Conpet: aparece como “SIM” em parte das linhas. O cabeçalho do arquivo informa 121 modelos com selo, 12,40% do total. Nas linhas que conseguimos ler, o selo só aparece em versões com classe A na categoria e A ou B no geral, mas nem toda versão com essas letras tem selo; a tabela não explica o critério completo.
  • Emissões (Nota Verde): a coluna “Redução Relativa ao Limite” classifica as emissões de poluentes em relação aos limites vigentes do Proconve, fase L8, também de A (menores emissões) a E. É um critério diferente da classe de consumo.
  • CO2 (g/km): a tabela mostra o CO2 “fóssil” para etanol, o CO2 “total” e o “fóssil” para gasolina ou diesel. A nota do cabeçalho diz que o valor se refere ao combustível de origem fóssil não renovável.
  • Autonomia no modo elétrico (km): só para elétricos e híbridos plug-in.

Exemplo: lendo uma linha (Fiat Argo 1.0)

Na tabela, o Fiat Argo 1.0, motor 1.0-6V, câmbio manual de 5 marchas, aparece assim:

ItemValor na tabela
CategoriaCompacto
Etanol: cidade / estrada / combinado9,4 / 10,4 / 9,8 km/l
Gasolina: cidade / estrada / combinado13,6 / 14,5 / 14,0 km/l
CO2 com gasolina (total / fóssil)114 / 94 g/km
CO2 fóssil com etanol0 g/km
Consumo energético1,52 MJ/km
Classificação na categoria / geralC / B
Selo Conpetnão

Leitura: entre os carros da categoria “Compacto”, esse Argo fica na faixa C. Em comparação com toda a tabela, fica na B.

A letra só vale dentro da categoria

O exemplo mais claro está na categoria Sub Compacto. Das 9 linhas dessa categoria na tabela, 7 são elétricos, com consumo energético entre 0,39 e 0,50 MJ/km. As outras duas são o Fiat Mobi Like (1,40 MJ/km) e o Mobi Trekking (1,46 MJ/km), que ficam com classe E na categoria, porque a categoria tem elétricos muito eficientes. Na comparação geral, os dois são B. Ou seja, o “E” do Mobi não quer dizer que ele consome muito para um carro 1.0 a gasolina/etanol; quer dizer que ele está atrás dos elétricos do mesmo grupo.

Consequências práticas:

  • Só compare letras de carros da mesma categoria, ou use a letra geral.
  • A letra depende de quem está na categoria naquela edição da tabela. Ela pode mudar quando modelos entram ou saem.
  • Duas versões com a mesma letra podem ter consumo bem diferente em km/l, porque a classe é definida em MJ/km.

“Menos de 100 g/km”: o que a tabela mostra

Ao ler a etiqueta ou a tabela, há dois números de CO2 para carros a gasolina ou flex, e o menor deles costuma ser o “fóssil”. Na tabela de 2026, considerando as linhas de carros a combustão e híbridos comuns com os dois valores publicados (sem elétricos nem plug-in):

  • CO2 total abaixo de 100 g/km com gasolina: 16 linhas, todas de híbridos, como o Hyundai Kona Hybrid (90 g/km total, 74 fóssil) e o Toyota Corolla Altis Hybrid (95 total, 79 fóssil).
  • CO2 fóssil abaixo de 100 g/km com gasolina: mais de 120 linhas, incluindo carros flex 1.0 sem qualquer eletrificação. O Fiat Argo 1.0 tem 114 g/km total e 94 g/km fóssil.

A diferença entre total e fóssil vem do etanol presente na gasolina de referência (E22) e do fato de a tabela contar como fóssil só a parte não renovável. Portanto, quando alguém diz “emite menos de 100 g/km”, vale perguntar qual coluna. E, para os flex, o CO2 fóssil com etanol aparece como 0 na tabela; isso não significa que o escapamento não emita CO2, e sim que a tabela só contabiliza o CO2 de origem fóssil.

Limites da comparação

  • É ensaio de laboratório. O documento de metodologia do Inmetro diz que os valores vêm de medições padronizadas (NBR 7024), com combustíveis-padrão e ciclos de condução pré-definidos, e que no uso real diversos fatores alteram o consumo: forma de dirigir, clima, trânsito, ar-condicionado, carga, pneus e manutenção.
  • Há fator de ajuste. O mesmo documento diz que o Inmetro adotou fatores de ajuste, desenvolvidos pela agência ambiental americana, e que 90% dos usuários ficam dentro de mais ou menos 20% dos consumos declarados. Ou seja, mesmo o valor publicado pode ficar acima ou abaixo do seu consumo.
  • Não compara nada fora da tabela. Um carro que não participa do programa não aparece.

Para transformar km/l em custo, use a calculadora de combustível. Para comparar modelos lado a lado, o comparador de carros pode ajudar.

Erros comuns

  • Comparar a letra de um Sub Compacto com a de um Grande.
  • Achar que “A” quer dizer o carro que faz mais km/l. A letra é de energia por km.
  • Tratar o CO2 fóssil de um flex como se fosse o CO2 total.
  • Esperar que o consumo do seu dia a dia seja igual ao da tabela.

Perguntas frequentes

A etiqueta é obrigatória? O documento de metodologia do Inmetro, de 2009, a descreve como voluntária para os modelos participantes. Não conseguimos abrir o texto integral da Portaria nº 169/2023 em 29/09/2026 e, por isso, não afirmamos qual é a regra hoje.

Onde vejo a tabela completa? Na página do PBE Veicular no site do Inmetro (gov.br), que traz os arquivos de cada ano.

O que quer dizer “Combinado”? É o terceiro valor de km/l que a tabela publica ao lado de cidade e estrada. A tabela não detalha como ele é obtido.

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